Especialistas acreditam que as declarações do presidente da Rússia mostram sua frustração diante da resistência militar ucraniana. Putin coloca forças de controle nuclear russo em alerta
O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, afirmou neste domingo (27) que o anúncio do presidente russo, Vladimir Putin, de que colocaria sua força nuclear em alerta visa a desviar a atenção da forte resistência que suas tropas enfrentam na Ucrânia.
“Acho que é uma distração do que realmente ocorre na Ucrânia”, disse o líder britânico, após uma reunião com membros da comunidade ucraniana em Londres. “É um povo inocente, que enfrenta uma agressão não provocada. O que acontece de verdade é que estão se defendendo com mais eficácia, com mais resistência”, acrescentou Boris Johnson.
O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, em encontro com a comunidade ucraniana em Londres no domingo (27)
Jamie Lorriman via REUTERS
EUA, Otan e Ucrânia reagem
O ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Dmytro Kuleba, disse que Kiev não vai ceder nas negociações com a Rússia, acusando Putin de tentar aumentar a “pressão”.
“Não vamos nos render, não vamos capitular, não vamos desistir de um único centímetro de nosso território”, declarou Kuleba em uma coletiva de imprensa.
Prédio atingido por bombardeio é visto em Kiev, capital da Ucrânia, neste sábado (26)
Daniel Leal/AFP
Os Estados Unidos, por sua vez, afirmaram que Putin está “fabricando ameaças”. “Este é um padrão do presidente Putin que temos visto ao longo deste conflito, que está fabricando ameaças que não existem para justificar novas agressões”, disse a secretária de imprensa da Casa Branca, Jen Psaki.
Enquanto isso, a embaixadora de Washington na ONU, Linda Thomas-Greenfield, condenou veementemente o alerta das forças de dissuasão nuclear russas. “Significa que o presidente Putin continua intensificando essa guerra de uma maneira totalmente inaceitável”, reagiu ela.
Para a Otan, o alerta russo é “irresponsável”. “Esta é uma retórica perigosa. Este é um comportamento irresponsável”, disse o secretário-geral da aliança Jens Stoltenberg. “E, é claro, se você combinar essa retórica com o que eles estão fazendo na Ucrânia, travando uma guerra contra a nação soberana independente, conduzindo uma invasão total da Ucrânia, isso aumenta a gravidade da situação”, adicionou.
Arsenal russo
Imagens de satélite mostram forças terrestres russas se movendo em direção a Kiev
A Rússia possui o maior arsenal de armas nucleares do mundo e um enorme arsenal de mísseis balísticos, que formam a espinha dorsal das forças de dissuasão do país.
Segundo uma pesquisa do Instituto Internacional da Paz de Estocolmo (SIPRI) realizada em 2019, os russos possuem mais de 6 mil ogivas nucleares. Com isso, eles se tornam o maior país, numericamente, em armamentos nucleares.
O número total verdadeiro pode ser ainda maior, uma vez que os países dificultam o acesso a essas estatísticas.
Analistas refletem possível blefe
Vladimir Putin pretende realmente usar armas nucleares em sua guerra contra a Ucrânia? A escalada sem retorno parece distante da realidade do conflito, mas as ameaças fazem parte da lógica da tática recente do presidente russo.
Analistas e especialistas ocidentais acreditam que as declarações de Putin sobre o alerta da dissuasão nuclear é puro blefe, mas, ao mesmo tempo, um jogo perigoso que mostra a sua frustração diante da resistência militar ucraniana.
Os especialistas lembraram que parte dos arsenais nucleares, tanto da Rússia quanto da Otan, está permanentemente pronta para o uso imediato.
“Eles podem ser ativados em 10 minutos”, ressaltou Marc Finaud, especialista do Centro de Políticas de Segurança de Genebra (GCSP). “São ogivas já colocadas em mísseis (em terra ou submarinos), ou são bombas que já estão a bordo” de aviões de ataque.
Em artigo publicado recentemente no “Boletim dos Cientistas Atômicos”, os especialistas Hans Kristensen e Matt Korda afirmam que cerca de 1.600 ogivas nucleares estão instaladas e prontas para o uso.
Resistência ucraniana
Os analistas evocam que esse passo à frente foi provocado pela atual situação militar. “Há uma frustração russa com a resistência ucraniana”, observou David Khalfa, pesquisador da Fundação Jean Jaurès, em Paris.
26/02 – Fumaça é vista em tanque russo destruído pelas tropas ucranianas em Lugansk, na Ucrânia
Anatolii Stepanov/AFP
Eliot Cohen, especialista do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) em Washington, também acredita que Moscou tenha subestimado a capacidade de resistência da Ucrânia.
“Começamos a ver a fragilidade no campo de batalha. Não foram capazes de ocupar uma cidade e mantê-la”, comentou o especialista.
Objetivo político
Nesse contexto, e à medida que a ajuda e as doações ocidentais fluem para a Ucrânia, as declarações de Putin parecem um desejo de minar a solidariedade de seus adversários.
“Putin é um jogador, alguém que se arrisca. Tenta nos testar psicologicamente”, diz Eliot Cohen. “O aspecto psicológico é fundamental”, confirma David Khalfa, destacando a tentativa do presidente russo de “dissuadir os ocidentais de irem além nas sanções econômicas”.
As verdadeiras intenções do chefe de Estado russo se tornam ainda mais ilegíveis porque essas declarações contradizem a doutrina russa de dissuasão.
Em junho de 2020, lembram Hans Kristensen e Matt Korda, Putin havia aprovado os “princípios básicos”, com quatro cenários que justificavam o uso do armamento nuclear: lançamento de mísseis balísticos contra a Rússia ou um aliado, uso de arma nuclear por um adversário, ataque a um sítio de armas nucleares ou agressão que ponha em risco “a própria existência do Estado”. Nada disso acontece hoje.
Quanto ao seu posicionamento internacional, a Rússia havia assinado em janeiro, com os outros quatro membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (Estados Unidos, China, França e Grã-Bretanha), um documento no qual reconhecia que “não se pode vencer uma guerra nuclear” e insistia em que “enquanto essas armas existirem, elas devem servir a fins defensivos, dissuasivos e de prevenção de guerras”.
As declarações de Putin mostram “a ambiguidade, senão a hipocrisia, desse tipo de declaração”, lamentou Marc Finaud. Mas mesmo que o apocalipse não esteja no roteiro do que acontece na Ucrânia, “sempre existe o risco de erro ou falha, de má interpretação, ou mesmo de manipulação. E esse risco hoje é muito elevado”, ressaltou o especialista.
Vídeos para entender a Guerra na Ucrânia
Fonte: G1 Mundo
