Guerra na Ucrânia: Paraense na Polônia recebe mãe e filha refugiadas em casa: ‘Comunicação é por mímica, no amor’

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Família que fugiu da guerra deve ficar por até 3 meses com casal de brasileiros. Eles integram rede de moradores da Cracóvia e outras cidades que acolhem refugiados em suas residências. Paraense mostra como arrumou casa na Polônia para receber refugiadas da Ucrânia
Logo após se recuperar da Covid-19, um casal de brasileiros que vive na Polônia readaptou a casa em um dia para receber mãe e filha refugiadas da Ucrânia. A comunicação entre eles ainda é difícil, mas os poucos dias vivendo juntos já mostraram à família que fugiu da guerra que naquela casa terá segurança e carinho. Elas devem ficar com os brasileiros por até 3 meses.
A paraense Letícia Oliveira Santos Bessa de Castro Lemos, de 36 anos, e o marido reorganizaram a casa para que a família ucraniana tivesse um espaço próprio e ficasse mais à vontade. Plaquinhas de boas vindas, doces, bonecas e outros brinquedos também foram usados para deixar o ambiente mais acolhedor – veja no vídeo acima. Dois gatinhos, que foram do Brasil com o casal, também ajudam para uma recepção mais calorosa.
“Para nossa sorte, a mãe fala um pouco de inglês, a gente aqui está tentando aprender ucraniano, mas a gente é bem ruim e aí a comunicação é na mímica, no amor, é no Google translator. As vezes meu marido fala em inglês e a criança responde ucraniano e eles se entendem”, afirma a paraense .
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Mãe e filha chegaram só com duas pequenas mochilas. Segundo Letícia, elas estavam tranquilas, apesar do choque. Segundo Letícia, após o primeiro dia de convivência, o casal brasileiro conseguiu tirar sorrisos de mãe e filha – veja no vídeo abaixo.
Paraense fala sobre 1º dia da chegada de refugiadas da guerra
Nascida em Belém, Letícia mora com o marido há cinco anos na Cracóvia. Na cidade e em outras pelo país polonês, uma rede de solidariedade se formou e famílias que fogem da Ucrânia são acolhidas. Os moradores colocam à disposição por meio de programas de ajuda humanitária.
No entanto, segundo ela, o número de casas disponíveis já começa a ficar reduzidos e há famílias refugiadas que ficam na estação de trem até conseguir um local seguro – veja mais abaixo.
“Tem uma mobilização grande. Todo mundo aqui está tentando fazer o seu melhor. Foi o motivo que nos fez ajudar e tirou a gente da angústia. Estamos muito unidos e ver essa mobilização enche o coração. A gente quer acolher. Podia ser a gente, eu, você, minha família”, afirma.
Criança e mãe ucranianas foram recebidas na Cracóvia na casa de brasileiros
Letícia Lemos/Reprodução
“A gente não é uma exceção. A gente faz parte dessa cultura local que, pessoalmente chamo de corrente do amor. Muita gente realmente está recebendo refugiados na própria casa. Quase todos os meus amigos, às vezes até mais de uma família [é recebida], uma na sala, outra no quarto. Tem gente que mora num apartamento quarto e sala que dorme na sala e cedeu o quarto pra uma mãe, avó e a filha possam ficar de forma segura”, detalha Letícia.
Segundo ela, as famílias polonesas ou que moram no país comunicam a possibilidade de acolher pessoas às redes montadas para ajudar os refugiados. Eles não conhecem as pessoas que ficarão em suas casas e em alguns casos, por conta da dificuldade de comunicação, não sabem exatamente quando os refugiados chegarão. .
“Na Europa, é algo assim: ‘Se você convidou alguém para sua casa é porque você confia nessa pessoa, pois é um espaço de intimidade. São pessoas que a gente não conhecia, a gente só disponibiliza casa, não escolhe”.
Preparação da casa
A decisão do casal de acolher refugiado veio logo após o início da guerra. Mas eles foram diagnosticados com Covid e precisaram esperar. “Meu marido e eu escolhemos oferecer o abrigo de médio prazo, de dois a três meses para que elas de fato possam sair do choque, processar o que está acontecendo e conseguir tomar uma decisão de ‘vou pra onde, vou como, vou trabalhar com o quê, como que fazer’”.
No último sábado(5), Leticia e o marido confirmaram que não estavam mais com Covid e que poderiam receber a família, que tinha previsão de chegar na noite de domingo (6). Mas pela manhã, souberam que mãe e filha tinham conseguido atravessar a fronteira e estavam próximas.
“Daí foi o corre para que elas tivessem um lugar limpo, aconchegante, acolhedor, em que elas fossem se sentir bem e confortáveis. Reorganizar a casa para que elas também não se sentissem incomodando e para que a gente pudesse continuar ‘funcionando’, como escolhermos oferecer abrido por até 3 meses”, afirma.
Através de sua rede social, Letícia tem contato como está a acolhida e tem recebido ajuda financeira de amigos, familiares e o dinheiro tem sido usado na aquisição de materiais de higiene e outros donativos aos refugiados e até passagens para alguns que precisam se deslocar para outros locais.
Além de receber famílias em casa, há voluntários trabalhando em centros organizando as doações. Na fronteira, transportes estão sendo disponibilizados para auxiliar quem chega. A distância da fronteira de Ucrânia e Polônia e a cidade de Cracóvia é de 290 quilômetros, segundo Letícia.
Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), mais de 1,2 milhão de refugiados seguiram para a Polônia. A Eslováquia recebeu mais de 140 mil. Segundo Letícia, na Cracóvia cada vez mais chegam refugiados da Ucrânia e com isso, o número de casas para recebê-los também diminui. O governo polonês, segundo Letícia, tem providenciado abrigos e incentivado os moradores para aumentar a rede de acolhimento dos refugiados.
“Está começando a ficar complicado a acomodação de pessoas aqui porque muita gente continua vendo cada vez mais o número de casos obviamente começou a reduzir. A gente está começando a ver famílias chegando sem ter pra onde ir e ficando na estação. Dói o coração. No dia da mulher, uma mãe com uma criança sem nenhuma rede de apoio num país estrangeiro, onde ela não fala a língua e a cidade dela está totalmente destruída”, contou emocionada.
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Fonte: G1 Mundo