Presidente eleito do Chile governará sem maioria, com Congresso dividido entre forças de direita e esquerda, que limitarão reformas radicais. O presidente eleito do Chile, Gabriel Boric, comemora sua vitória no segundo turno da eleição presidencial chilena, com apoiadores, na capital Santiago, em 19 de dezembro de 2021
Luis Hidalgo/AP
Gabriel Boric sai das urnas como presidente eleito mais jovem e com o maior número de votos da História do Chile, no pleito que registrou também o maior índice de participação. Seus 4,6 milhões de eleitores lhe deram mais de 10 pontos de vantagem sobre o ultradireitista José Antonio Kast.
Desta forma, o candidato da aliança Aprovo Dignidade acumulou capital político suficiente para afastar a tese de que o país está polarizado. Para dirimir a ameaça do retorno da extrema direita ao comando do Chile, pela primeira vez desde a redemocratização, Boric moderou o discurso após o primeiro turno: cooptou apoio dos setores de centro-esquerda e obteve a bênção dos ex-presidentes Ricardo Lagos e Michelle Bachelet.
Ele chegará em março ao Palácio de La Moneda, com 36 anos, como representante da nova esquerda chilena e de uma geração que cresceu longe do horror do regime militar, viu a desigualdade aumentar e cobra demandas diferentes das de seus pais.
Sem experiência no Executivo, o presidente eleito tem como primeiro desafio montar uma equipe de governo de credibilidade que consiga acalmar os mercados. Sem maioria clara, ele governará com um Congresso dividido entre forças de esquerda e direita, que limitarão reformas radicais.
Para avançar, Boric terá que conciliar num cenário diverso, com dívidas a saldar. A inflação, recorde em 12 meses, está em 6%, a pandemia fez o desemprego saltar de 8,6% para 10,8%. Sob a sua administração será aprovada a nova Constituição, que é redigida por uma Assembleia Constituinte, e substituirá a arcaica Carta Magna do regime militar.
Precisará de jogo de cintura para atenuar o conflito pela posse de terras reivindicadas pela comunidade dos mapuches no Sul do país e conter a imigração de venezuelanos e haitianos, que chegam à fronteira norte e enfrentam resistência de moradores.
Seu discurso de vitória teve a frase clássica – “serei presidente de todos os chilenos e chilenas” – que poderia também ter sido pronunciada pelo adversário Kast, caso tivesse sido eleito.
Coube a ele a tarefa de afastar com competência a volta do autoritarismo ao país. Resta saber, contudo, qual dos Boric entrará em março no palácio de governo: o candidato do primeiro turno, crítico das políticas neoliberais de seus antecessores de centro-esquerda, ou o do segundo turno, disposto ao consenso.
Fonte: G1 Mundo
