Com banheiro do lado de fora de bunker em hotel na Ucrânia, brasileiros relatam medo de sair

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‘A gente escutava bomba o tempo todo quando saía do bunker para ir ali fora, no banheiro’, disse o fisioterapeuta Luciano Rosa. ‘A gente estava com muito medo de sair’, falou o jogador Gustavo Marques, filho dele. Os dois fugiram do país com outros brasileiros e chegaram nesta terça a SP. Gustavo Marques e o pai, Luciano Rosa, contam como foi ficarem escondidos num bunker de hotel em Kiev, na Ucrânia
Kleber Tomaz/g1 e Arquivo pessoal/Divulgação
Parte dos cerca de 40 brasileiros que ficaram escondidos por três dias dentro do bunker de um hotel em Kiev, capital da Ucrânia, lembraram nesta terça-feira (1º), ao chegar ao Brasil, do medo que tinham de ser atingidos por tiros, bombas e até mísseis quando precisavam ir ao banheiro.
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Isso porque o banheiro fica do lado de fora do bunker em estavam acomodados, no subsolo do hotel. A sala onde ficaram tem pouca iluminação, carpete, cadeiras e parece um espaço comum de reuniões, mas é protegida por paredes mais grossas, que poderiam impedir o impacto de balas e explosões.
Bunkers são abrigos contra ataques inimigos, herança do período em que a região pertenceu à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), antigo estado que originou a república da Rússia (saiba mais abaixo).
O grupo de brasileiros e dois estrangeiros que estavam no bunker do hotel em Kiev conseguiu sair da Ucrânia no sábado (26). Antes, eles tinham gravado um vídeo que viralizou nas redes sociais. Nele, pediam ajuda às autoridades brasileiras, como o Itamaraty e embaixada brasileira, para deixarem o local com segurança.
Ir ao banheiro era arriscado
Atletas estavam entre brasileiros que pediam ajuda para deixar a Ucrânia
Reprodução/ Instagram
“Quando a gente saía do bunker pra ir no banheiro, a gente ouvia os barulhos, toque de sirene toda hora, quanto mais tempo passava, mais era difícil sair”, contou o fisioterapeuta Luciano Rosa, do Shakhtar Donetsk, time de futebol ucraniano, ao falar com jornalistas no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, na Grande São Paulo.
“A gente escutava bomba o tempo todo quando saía do bunker para ir ali fora, no banheiro. Escutava barulho de tiro e, ao mesmo tempo, a gente acompanhava na internet: ‘[Os russos] estão chegando em Kiev’.”
A guerra na Ucrânia teve início na última quinta-feira (24), quando tropas do exército da Rússia invadiram o país vizinho. Um dos motivos para o ataque é que os russos não querem que os ucranianos integrem a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que é liderada pelos Estados Unidos.
Luciano, que chegou a gravar um vídeo explicando como são as acomodações do bunker (assista abaixo), viveu ao lado do filho, o jogador Gustavo Marques, de 19 anos, algumas das maiores emoções das suas vidas: a de terem sobrevivido a uma guerra.
“A bomba acho que caiu bem longe, mas deu para ver o clarão e escutar o barulho. A gente não sabia se eles [russos] estavam em Kiev já, então a gente estava com muito medo de sair”, falou Gustavo, que disse ter visto muitos ucranianos civis armados e aeronaves sobrevoando o local. “Pessoas com fuzis… Eu consegui ver avião militar assim… caindo.”
Chuveiro só nos quartos
Brasileiro explica como chegou a bunker em Kiev
Como o banheiro só tinha um vaso sanitário e não possuía chuveiro, alguns atletas que estavam no grupo no hotel com suas famílias deixaram de tomar banho. Os chuveiros ficavam nos quartos, nos andares superiores, mas poucos se arriscavam a subir e correr o risco de ser atingidos por algum artefato explosivo lançado pelos russos.
“Eles subiam nos quartos algumas vezes e desciam correndo, quando ouviam sirenes anunciando algum ataque”, contou o empresário Eduardo Goldstein, que, ao lado da esposa Aline, são proprietários da Taltus, empresa especializada em dar assessoria a atletas profissionais. “Cuidamos desde matrícula em escolas até investimentos financeiros. Nós ficamos em São Paulo e acompanhamos daqui o que eles estavam passando, fazendo contato com empresas aéreas etc”.
Pela primeira vez na vida, eles entraram em um bunker, precisaram improvisar colchões no chão para dormir e, como muitos estavam com suas famílias, contam que todas as decisões tinham de ser conjuntas. Até mesmo deixarem o hotel: precisavam correr, pois tinham apenas 5 minutos para ir até um comboio de carros que os levariam até a estação de trem, que ficava a 2 km de onde estavam.
“Nós ficamos três dias no hotel e chegou um momento que eu já não pensava que pudesse sair de lá, que a minha esposa, que a minha filha e todas as crianças saíssem de lá. Nós pegamos um trem no último dia e teve um alerta de que [a situação] ia piorar muito e, se nós não saíssemos em 5 minutos, não íamos poder sair [mais]. Então pegamos o trem e saímos”, disse Pedro Victor da Silva, o Pedrinho, de 23 anos, do Shakhtar Donetsk.
Uruguaios viajaram com brasileiros
Suprimentos médicos em bunker em hotel na Ucrânia
Luciano Rosas/Arquivo Pessoal
“Éramos um grupo de 40 pessoas, com filhos, com família. No meu caso, minha família está no Uruguai, é diferente, mas tinham colegas com famílias, com filhos. Então era tentar passar força para todos, tentar ficarmos unidos, qualquer fosse a decisão que nós íamos tomar, que fosse junto”, falou o jogador uruguaio Carlos de Pena, de 29 anos, do Dynamo de Kiev.
O grupo precisou racionar comida no bunker e instalou uma bandeira do Brasil na frente do hotel para que russos e/ou ucranianos não atacassem o local, numa demonstração de que ali estavam estrangeiros pacíficos.
Carlos e outro jogador uruguaio estavam no mesmo bunker com os brasileiros. O hotel costuma ser usado pelo Shakhtar Donetsk quando a equipe viaja a Kiev. O Shakhtar fica na província separatista ucraniana de Donbass, que se autoproclamou um novo país, juntamente com outra província da Ucrânia, a de Luhansk. Ambas foram reconhecidas antes da guerra como estados independentes pelo presidente russo Vladimir Putin.
Atletas estão entre brasileiros que pedem ajuda para deixar a Ucrânia
A Uefa [União Europeia de Futebol Associada, numa tradução livre do inglês para o português] e a Federação Ucraniana de Futebol ajudaram o grupo a deixar o hotel, pagando transporte até a fronteira para que todos pudessem sair com segurança. Eles foram até a Moldávia, depois à Romênia, de onde pegaram voos para o Brasil.
Cerca de 14 pessoas desembarcaram em aviões que chegaram nesta manhã em Guarulhos. Outros foram para o Rio de Janeiro, também nesta terça. E há ainda alguns que permaneceram em outros países da Europa à espera de voos para o Brasil.
Três brasileiros que não conseguiram sair com o grupo no sábado, porque tinham ido aos quartos no momento da saída do hotel, conseguiram deixar a Ucrânia nesta terça e estão a caminho da Polônia.
Bunkers: herança da União Soviética
Herança da União Soviética, bunkers são comuns na Ucrânia e são sinalizados com a inscrição de “abrigo” (“укриття”) ou com uma placa com dois lances de escada para baixo
Reprodução/ Kostyantyn Chernichkin/ The Kyiv Independent
Um resquício de quando a Ucrânia integrou a a União Soviética, os bunkers são comuns em território ucraniano, principalmente na capital, como explica Fabrício Vitorino, mestre em cultura russa pela Universidade de São Paulo (USP).
“Kiev é a cidade com o maior número de bunkers entre as áreas que foram da União Soviética”, disse Fabrício. “Praticamente toda a infraestrutura da Ucrânia ainda é a do período da União Soviética. Como o que ela mais temia era um ataque, de imediato houve a necessidade de readaptar as cidades e criar bolsões. Começou a se criar então essa cultura, de uma vida subterrânea.”
Com o tempo, eles foram sendo sofisticados para garantir maior proteção em caso de ataque de bombas. “Conforme a atmosfera nuclear foi evoluindo, os bunkers precisaram ser aprimorados ainda mais. Então, na República Tcheca, por exemplo, as estruturas são muito mais profundas. São pesadas, pensadas para ser os ‘Fallout Shellter’, os abrigos nucleares”, afirmou o pesquisador.
No período final da União Soviética, já sob um clima menos apreensivo, os abrigos passaram a ser explorados comercialmente para turismo. “Na Ucrânia, por exemplo, passaram a fazer turismo, começaram a monetizar isso. Muitas estruturas que estavam abandonadas foram rearranjadas e reaparelhadas para esse contexto mais recente, ao menos até 2014 para cá, quando voltou a se ter apreensão com as ameaças russas”, contou Fabrício.

Fonte: G1 Mundo