Análise – A Ucrânia está à frente em ao menos uma guerra: a da comunicação

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Zelensky cria imagem poderosa ao postar nas redes sociais um vídeo seu nas ruas de Kiev, além de fazer declarações que incendeiam a imaginação de seus liderados, como a dada em resposta à oferta americana de refúgio: “Não preciso de uma carona, preciso de munição”. Comboio militar na região de Luhansk, na Ucrânia
REUTERS/Alexander Ermochenko
“Quantas divisões tem Selena Gomez?” A pergunta bem que poderia ser feita pelo presidente russo Vladimir Putin. Não foi feita, mas poderia, tendo em vista a guerra que se desdobra diante dos olhos do mundo: A Primeira Guerra Mundial das Redes. A pergunta hipotética está num artigo do colunista Thomas L. Friedman, no “The New York Times”, e ecoa uma pergunta semelhante e real, feita pelo ex-comandante da União Soviética Josef Stalin desdenhando da força da Igreja Católica: “Quantas divisões tem o papa?”. Muitos anos depois da morte de Stalin, o papa – João Paulo II – venceu no final: foi decisivo para desmantelar a União Soviética, usando uma arma poderosa e a única que tinha: seu imenso poder de comunicação.
Essa guerra paralela, no mundo digital, é travada no Tiktok, no Instagram, no Twitter. Vai influenciar a guerra real? Veremos. Mas, por enquanto, a Ucrânia leva ampla vantagem nesse terreno virtual, e seu presidente, Volodymyr Zelensky, usa muito bem a única arma de longo alcance que tem em mãos: o seu imenso poder de comunicação.
Não é a primeira vez que a comunicação vence uma guerra. O grande exemplo disso foi o último conflito continental da Europa, a Segunda Guerra Mundial. Foram os magníficos discursos do primeiro-ministro britânico Winston Churchill que mantiveram os britânicos unidos, dispostos a enfrentar um inimigo muito mais poderoso, a Alemanha nazista, que jogava bombas todas as noites sobre Londres. Churchill sabia que não teria meios, soldados ou armamentos para vencer os nazistas. A única chance de sobrevivência do Reino Unido era suportar os ataques inimigos, até que os Estados Unidos decidissem entrar na guerra, algo que os americanos se recusaram até serem atacados pelos japoneses em Pearl Harbour. Enquanto isso, os britânicos suportaram quase um ano e meio de bombas, incêndios, escassez de comida e água, perda de parentes e amigos, lembrando sempre das palavras de Churchill no seu discurso de posse como primeiro-ministro: “nada tenho a oferecer se não sangue, trabalho, suor e lágrimas”. Um gesto também ajudou nesse esforço de guerra: o V da vitória feito com os dedos, que não foi inventado por Churchill, mas foi popularizado por ele. De noite, os londrinos ouviam bombas alemãs explodindo na cidade; de manhã, viam seu líder fazendo V de vitória nas capas dos jornais e certamente pensavam: sobrevivemos mais um dia.
Zelensky não é Churchill, mas já criou uma frase que incendeia a imaginação dos seus liderados, quando respondeu à oferta americana de refúgio: “Não preciso de uma carona, preciso de munição”. Corajosa e concisa, menos de 144 caracteres, perfeita para o Twitter, uma bomba atômica de retórica, que certamente faz os ucranianos pensarem depois dos tiroteios e bombas da noite: sobrevivemos mais um dia.
Não é a primeira vez também que uma foto influi no resultado de uma guerra. Um exemplo clássico foi o conflito do Vietnã, que acabou em 1975. A foto de Phan Thi Kim Phúc – aquela menina nua, correndo, com o corpo queimando pelas bombas incendiárias de napalm lançadas pelos soldados dos Estados Unidos – corroeu o apoio dos americanos à guerra e alimentou as manifestações pacifistas, que precipitaram o fim do conflito.
A icônica imagem da Guerra do Vietnã foi feita pelo fotógrafo Huynh Cong ‘Nick’ Ut, da Associated Press
Nick Ut/AP
Zelensky também não é Phan Thi Kim Phúc, mas, ao aparecer nas redes sociais no meio da rua na zona de combate em que se tornou Kiev, ele produziu uma imagem poderosa, que já entrou para a história. Essa imagem vale por um zilhão de palavras, se espalhou pelo mundo pelas redes sociais como um rastilho de pólvora e fará parte da iconografia da Ucrânia. Cada país tem histórias e imagens que moldam a sua maneira de ser; memórias compartilhadas que formam a ideia coletiva do que é pertencer a esse país, mesmo que – nessa imagem – a realidade seja um pouco misturada com lenda. Os Estados Unidos têm George Washington cruzando o rio Delaware num barquinho, a França tem a Liberdade guiando o povo da pintura de Delacroix, o Brasil tem Dom Pedro I sobre um garboso cavalo branco gritando “Independência ou Morte” à beira do Ipiranga no quadro de Pedro Américo. Aconteça o que acontecer nessa guerra, A Ucrânia – um país novo, que surgiu há pouco mais de 30 anos – agora tem a sua iconografia. Pela primeira vez na história, uma iconografia registrada por celulares, compartilhada pelo planeta numa fração de segundo nas redes sociais e guardada para sempre (o Google não esquece!).
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Duas observações: Divisão é uma unidade do exército, composta entre 9 mil e 20 mil soldados. Selena Gomez foi usada aleatoriamente como exemplo por Friedman por ter quase 300 milhões de seguidores nas redes sociais, o dobro de toda a população russa. Em outras palavras, muito mais seguidores do que todas as divisões do exército russo.
Roberto Kovalick é editor-chefe e apresentador do Hora 1. Foi correspondente da TV Globo em Nova York, Tóquio e Londres.

Fonte: G1 Mundo