Idosa desacordada em UTI, pesadelos à noite e prejuízos financeiros: as dores de vítimas da imprudência nas faixas de pedestre de Palmas

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Imprudência levou a três histórias recentes de acidentes na capital e vítimas ainda sofrem com as consequências físicas e psicológicas. Agente ensina a melhor forma de fazer a travessia e fala de ações desenvolvidas para a educação no trânsito em Palmas. Faixa de pedestres sem semáforo entre as quadras 102 e 104 norte já registrou acidentes
Patricia Lauris/g1 Tocantins
“Palmas é uma das melhore cidades em termos de sinalização. Se a cidade está cidade bem sinalizada, se as vias são bem delimitadas, se não temos vias com pavimentação ruim e percebemos um eleva número de acidentes, isso se deve à desobediência a essa sinalização. Dessa forma é fundamental a educação para o trânsito, uma política maciça e juntamente com isso, uma política de sanção. Mais fiscalização e aplicação de multas porque no momento que as pessoas começam a ser penalizadas por aquela conduta, tendem a influenciar um comportamento de não desobedecer a sinalização”, afirmou o perito Francisco
As faixas de pedestres são mecanismos necessários para sinalizar locais de travessia, seja com a presença de semáforo ou não. Neste segundo caso, o artigo 70 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) determina que os pedestres têm prioridade de passagem. Mas em Palmas, onde há diversas faixas sem semáforo, a pessoa que precisa atravessar alguma via depende da boa vontade dos motoristas, já que muitos não respeitam a sinalização.
Pela falta de atenção em seguir as orientações para as faixas de pedestres que não possuem a sinalização eletrônica, tanto de quem precisa atravessar quanto dos carros, atropelamentos e batidas são constantes. Nos primeiros seis meses do ano, já são 217 infrações relacionadas às faixas de pedestres em Palmas, segundo dados da Secretaria Municipal de Segurança e Mobilidade Urbana (Sesmu).
Há dois meses, a Maria de Jesus Barbosa Chaves, de 68 anos, atravessava uma faixa de pedestre na Avenida NS-2, entre as quadras 102 e 104 Norte, em Palmas. Quando a idosa estava quase chegando ao canteiro central, um veículo em alta velocidade não parou. Atropelou dona Maria, que precisou ser socorrida pelo Samu. O motorista fugiu sem prestar socorro.
Desde então, a idosa está internada em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Geral de Palmas (HGP). A família quer identificar a pessoa que dirigia o carro que atropelou dona Maria de Jesus. A sobrinha, Joerlane Barbosa, que trabalha como funcionária pública, já tentou de todas as formas ver se algum comércio da avenida registrou o acidente ou flagrou, em algum momento, o carro que pode ter causado o acidente da tia. Mas até agora, nada.
Dona Maria de Jesus continua internada após dois meses do acidente
Cintia Ribeiro Portilho/TV Anhanguera
Dona Maria de Jesus foi atropelada no dia 15 de maio. Três dias depois, precisou ser internada na UTI, onde permanece já há dois meses. Para completar a tristeza, o acidente aconteceu perto do aniversário da idosa. “No dia 18 de maio ela foi para a UTI, então com 67 anos. No dia 21, que foi o dia do aniversário dela, ela estava internada, completou 68 anos”, disse Joerlane.
A sobrinha contou como era rotina da tia antes do acidente. “Ela não tem esposo, não tem filhos. Os parentes próximos são a mãe, os irmãos e sobrinhos. Ela frequentava mais a casa da minha avó ou então a igreja”, disse a sobrinha.
Joerlane também citou que, por coincidência, no dia do acidente, uma ‘irmã’ da mesma igreja, estava na avenida e foi ver o que tinha acontecido. Foi ela quem entrou em contato com a família de dona Maria para avisar do acidente.
“Foi a partir daí que a gente conseguiu receber a notícia do acidente dela. Ligaram para a gente avisando. Foi no final da tarde, umas 4 horas [16h]. Aí depois fomos para a UPA eu, minha avó e minha irmã. Logo ela foi para a sala vermelha, porque o estado era muito grave”, lembrou.
A família sofre com a incerteza no quadro de saúde de Maria de Jesus. Ela ficou muitos dias intubada e algum tempo depois a sedação foi retirada. Mesmo assim, ela não acordou. Na última semana, começou a retirada da ventilação mecânica para ver se ela consegue respirar sozinha. Mas ainda segue esse processo.
“Não acordou, não reagiu. Além disso, ela teve costelas quebradas, perfuração no pulmão, teve um pneumotórax, um derrame pleural. Quebrou o ombro, a bacia. Foi muito forte a pancada”.
Para Joerlane, a família não se conforma com a situação e tamanha violência que sofreu Maria de Jesus. Ela estava em uma faixa de pedestres, local em que tem preferência de travessia, e não teve esse direito respeitado.
Idosa atropelada em faixa de pedestre é socorrida pelo Samu em Palmas
Patrícia Lauris/g1 Tocantins
“Todo mundo ficou indignado porque o motorista bateu nela e foi embora sem prestar socorro. Inclusive fizemos um boletim de ocorrência e estamos aguardando as autoridades tomarem as providências para encontrar esse ou essa motorista e responsabilizá-lo por isso. Porque hoje a perspectiva de vida da minha tia é muito baixa. Se por milagre de Deus ela sobreviver, nunca mais vai ter qualidade de vida”, lamentou a sobrinha.
Cadê o respeito aos pedestres?
Na manhã do dia 5 de junho, a estudante de Sistemas de Informática Ana Paula Gomes Miranda, de 18 anos, também foi atropelada em uma faixa de pedestres de Palmas. O acidente aconteceu na Avenida NS-01, em frente à quadra ACNO 11 (103 Norte). Câmeras de segurança direcionadas para a avenida registraram o momento do impacto. As imagens são impressionantes.
É possível ver Ana Paula no canteiro central da via. Ela atravessa a primeira faixa e um carro dá a preferência. Na segunda faixa, um carro branco vem e não para. Ele atropelou a jovem e assim como no acidente da dona Maria de Jesus, o motorista não prestou socorro. Também acelerou e fugiu.
Momento em que estudante foi atropelada em faixa de pedestres
Reprodução
Ana Paula, ferida, vai cambaleando até a calçada. Mesmo conseguindo andar, a universitária precisou ir pelo menos duas vezes à Unidade de Pronto Atendimento e ficou internada no Hospital Geral de Palmas (HGP). As dores, sequelas do acidente, persistiram por mais de 15 dias.
A técnica de enfermagem Tina Gomes, mãe da jovem, contou que mesmo depois de dias do acidente, Ana Paula estava muito abalada. “Toda hora ela fica lembrando da pancada, se assustava à noite toda”.
Com o susto, Tina lamenta a falta de respeito por parte dos motoristas no trânsito. “Em Palmas, principalmente onde ela se acidentou, tinha que ter um sinaleiro. É em frente a uma igreja, é uma pista muito longa. Então você nunca está seguro, porque por mais que você olhe, e no caso da Ana ela parou, olhou, esperou os carros pararem, e mesmo assim a atropelaram. Então a conscientização maior tem que ser dos motoristas, porque lidam com vidas”.
“Hoje felizmente eu choro de alegria porque minha filha está viva. Mas e outros que não estão para contar história, que não tem voz para lutar por justiça?”, disse a mãe, pedindo por um trânsito mais seguro.
O que diz a lei
Segundo a agente de trânsito da Secretaria Municipal de Segurança e Mobilidade Urbana (Sesmu) Carolina Santos de Sousa, em uma situação considerada segura no trânsito, os veículos maiores devem proteger os menores e, inclusive, os pedestres. Mas infelizmente as infrações cometidas afetam todos os envolvidos.
Agente de trânsito Carolina Santos de Sousa
Patricia Lauris/g1 Tocantins
“O maior protege o menor, então o caminhão protege o carro, o carro é responsável pela moto e todos são responsáveis pelo pedestre. A gente vê muito, apesar de não justificar os acidentes, que quando as pessoas param na faixa não sabe como utilizar a faixa, principalmente essa que não tem semáforo”, destacou.
Uma atitude muito comum dos pedestres é entrar direto na avenida pela faixa, mas sem dar os comandos necessários e aguardar a parada dos carros, segundo a agente. “Eles já vão entrando, mexendo no celular, distraídos, com alguma coisa, correndo. A gente vê muito na porta das escolas as crianças correndo. Já pegam a mochilinha quando vê o pai do outro lado da rua e sai correndo”, disse.
Mas qual a forma correta de usar a sinalização?
A primeira ação quando a pessoa precisa atravessar uma faixa sem o farol e dar o sinal de vida, estendendo a mão na direção em que estão vindo os veículos, conforme orienta a agente Carolina. “Você está indicando que quer atravessar, como eles podem te ver”, ensinou.
Esperar os carros pararem nas pistas disponíveis, formando uma fila antes da faixa. “A partir do comento que todos param, aí sim o pedestre pode atravessar”, orientou.
Os veículos que param na faixa precisam ligar o pista-alerta para avisar os demais veículos que a parada é na faixa.
Os carros só devem avançar assim que o pedestre terminou de fazer a travessia completamente.
A agente também demonstrou como o pedestre deve proceder. Veja no vídeo abaixo:
Agente de trânsito demonstra como atravessar faixas de pedestres com segurança
O problema é que em muitos casos, os veículos não esperam o pedestre concluir a travessia. Além de ser uma infração de trânsito por não dar a preferência, o risco de atropelamentos aumenta. “Não é só porque passou na frente do meu carro que posso ir, tem que esperar concluir a travessia toda”, reforçou Carolina.
Segundo dados da Secretaria Municipal de Segurança e Mobilidade Urbana, não dar preferência aos pedestres nas faixas está entre as infrações mais recorrentes na capital. Confira os números:
Para garantir uma travessia segura, a Sesmu reforça que a o pedestre não passe pelas faixas correndo, mexendo no celular ou enquanto os carros não estejam parados. “Mesmo tendo a preferência, é sempre o pedestre que vai se machucar, que vai sofrer as consequências, mesmo ele estando certo. A gente pede para a população ter bastante atenção na beira das avenidas”.
Acidentes podem ser evitados
Por volta das 8h de uma manhã de abril deste ano, a contadora Ariane Pereira estava indo para o trabalho quando viu que uma caminhonete parou em uma faixa para um pedestre atravessar. Ela também parou, logo atrás desse veículo, como manda a sinalização que fica entre as quadras 104 e 106 Norte. O problema é que a motorista que estava atrás dela não fez o mesmo. Resultado: uma batida que envolveu três carros, susto e um prejuízo de quase R$ 19 mil.
Situação em que ficou o carro da contadora Ariane Pereira após batida em faixa de pedestre
Arquivo pessoal
“Ela não parou, tentou desviar, mas acabou acertando o nosso carro atrás e o empurrando na caminhonete da frente. Ela desceu do carro e foi ver se não tinha machucado ninguém”, relembrou a contadora.
Ariane disse que a motorista se desculpou e disse que estava distraída conversando com o filho, e isso teria causado o acidente. A mulher também ficou responsável por acionar o seguro e arcar com o prejuízo da contadora.
Mas além de ter ficado a pé por mais de um mês, enquanto o carro estava na oficina, a contadora não esquece o susto porque estava com a filha Manuela, de 3 anos, na hora do acidente.
“Ela começou a chorar e pedindo pra levar no hospital. Mas graças as Deus foi só o susto mesmo porque ela não se machucou. O filho da motorista chegou a ralar o nariz porque deve ter batido no banco do carro”, contou Ariane.
Contadora Ariane Pereira sofreu acidente na faixa entre as quadras 104 e 106 Norte
Patricia Lauris/g1 Tocantins
Velocidade permitida não colabora com as faixas
Alguns fatores determinados para as vias de Palmas podem colaborar com a desatenção no trânsito e, com o registro de acidentes. Para o perito de trânsito Francisco Soares, Palmas possui um conflito viário, pois a grande quantidade de cruzamentos e faixas de pedestre instaladas de forma aleatória influenciam negativamente aquelas faixas que estão bem colocadas.
“A partir do momento que você satura a via de faixas, o condutor do veículo tende a perder um pouco da atenção da faixa de pedestre porque ele está numa via que tem tantas e acaba dirigindo de forma igual durante toda a via”, explicou.
Conforme o perito, todo e qualquer condutor, de acordo com a legislação de trânsito, ao se aproximar de uma faixa de travessia de pedestre deve necessariamente reduzir a velocidade e trafegar em uma velocidade que seja suficiente para parar perante a faixa. Mas as velocidades permitidas também podem confundir os motoristas.
“Então, quando a gente tem uma via igual a grande maioria de Palmas tem sinalização regulamentar de 60 km por hora e você começa a colocar muita faixa, fica inviável o condutor trafegar nessa velocidade e ter que reduzir sempre”.
Ele sugere duas saídas para esse questionamento: “Primeiro, ou se reduz a velocidade da via para 40 km, 50km por hora, porque seria uma velocidade ideal para as vias de Palmas, com exceção da Teotônio Segurado. E o próprio condutor deve se comportar de forma defensiva para sempre que estiver trafegando em uma via e ela tiver faixa, obrigatoriamente ele deve ficar atendo a essa faixa. Em algum momento o pedestre pode iniciar essa travessia. E segundo, a gente analisa o comportamento do pedestre. Deve ser no sentido de que sempre que ele vai fazer uma travessia, ele dar o sinal de vida, balançar a mão, gesticular, de forma a ser visto pelos condutores”, alertou.
Para conscientizar sobre as regras que garantem menores índices de acidentes, o especialista ressaltou a importância da educação no trânsito. Também ponderou que apesar dos riscos citados, Palmas ainda é uma cidade bem sinalizada, com vias bem delimitadas e boa pavimentação. Mesmo assim, existe um alto número de acidentes.
“Dessa forma é fundamental a educação para o trânsito, uma política maciça e juntamente com isso, uma política de sanção. Mais fiscalização e aplicação de multas, porque no momento que as pessoas começam a ser penalizadas por aquela conduta, tendem a influenciar um comportamento de não desobedecer a sinalização”, pontuou o perito Francisco.
Dificuldades para punir
Uma das dificuldades na hora de punir quem comete os infratores nas faixas, segundo a agente de trânsito Carolina, é a escassez de equipamentos que flagrem as irregularidades e que as infrações só podem ser registradas com agentes em campo.
“Temos que estar in locu, ver e não adianta uma terceira pessoa filmar. Se uma pessoa pega a placa e informa os agentes, não seria infração, mas sim crime de trânsito. E aí seria o caso da Polícia Civil, como o delegado veria o delito. Mas a infração não seria lavrada, explicou.
Para a agente, o ideal seria que todas as faixas tivessem semáforo. Mas como essa ainda não é a realidade do trânsito de Palmas, seguir as orientações de travessia e da sinalização é importante para evitar acidentes.
“É inviável colocar semáforo em todas as faixas de pedestres, aí fazemos um estudo com maior índice de pessoas atravessando ou então da lista de imprudências para ver onde vão ser instaladas essas faixas”.
A agente Carolina informou que há processos abertos para instalação de 15 faixas de pedestres com semáforo pela cidade e outros quatro semáforos em cruzamentos. Confira as orientações ao passar por essa sinalização nesses períodos de maior volume:
Parar nas faixas mesmo em horários de pico é infração de trânsito; saiba as regras
Ainda com relação às punições, para além das infrações, os atropelamentos de dona Maria e Ana Paula estão sendo investigados pela Polícia Civil, por meio da Delegacia de Repressão a Crimes de Trânsito (DRCT – Palmas).
O g1 pediu dados à Polícia Civil e à Polícia Militar com relação ao ocorrências de atropelamentos em Palmas neste ano, mas até a publicação da reportagem os dados não foram disponibilizados.
Campanhas de educação no trânsito
Nem sempre as pessoas têm em mente as regras que fazem do trânsito um lugar mais seguro. Para alertar a população, campanhas são desenvolvidas pela Sesmu e apresentadas em vários segmentos da comunidade, como a ‘Maio Amarelo’. Justamente para ligar o alerta de que no trânsito, o primordial é escolher a vida.
“Fizemos campanha nas faixas de pedestres, a gente costuma fazer campanhas nas portas de escolas porque os pais costumam parar os carros e o filho sai correndo atravessando. Então pedimos para o pai pegar o filho na porta da escola. Tudo isso para diminuir esse índice de acidentes que temos”, reforçou a agente de trânsito Carolina.
No vídeo abaixo, a agente de trânsito fala de mais ações da Prefeitura de Palmas, por meio da Sesmu, para garantir a educação para um trânsito mais seguro nas ruas e avenidas da capital tocantinense. Assista:
Secretaria Segurança e Mobilidade Urbana tem projetos de educação no trânsito; saiba mais
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Fonte: G1 Tocantins