Eleições na França: entenda como a extrema direita chegou mais perto do poder

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Na primeira vez que a extrema direita esteve no segundo turno, em 2002, teve menos de 18% dos votos. Marine Le Pen teve cerca de 42% dos votos no domingo. Pesquisas dão vantagem ao presidente Macron na eleição domingo
O presidente Emmanuel Macron, da França, foi reeleito neste domingo (24) com 58,2% dos votos, apontam as projeções. A sua rival Marine Le Pen reconheceu a derrota menos de 15 minutos depois do fim da votação, mesmo antes da divulgação dos resultados oficiais.
As pesquisas indicam que os resultados foram os seguintes:
Emmanuel Macron (Em Marcha!): 58,2%
Marine Le Pen (Reunião nacional): 41,8%
Apesar da vitória, o desempenho de Macron foi pior se comparado com o de 2017. Naquele ano, Macron teve 66% dos votos, e Le Pen, 34%. Ou seja, ela teve 8 pontos percentuais a mais de votos neste ano.
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Durante seu discurso de reconhecimento da derrota, Le Pen afirmou que o resultado ainda é uma vitória para o seu movimento político.
Ela disse que o resultado histórico deste domingo a coloca em um lugar excelente para as próximas eleições, que a vontade de defender o que é francês foi reforçada, e que eles já foram declarados mortos mulheres de vezes, mas sempre erraram, e que o cenário político francês está se recompondo.
Pedestre passa por cartazes de Emmanuel Macron e Marine Le Pen em 4 de abril de 2022
Gonzalo Fuentes/Reuters
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Em 2002, Jean-Marie Le Pen, o pai de Marine, concorreu contra Jacques Chirac, e teve menos de 18% dos votos no segundo turno.
Os resultados mostram que as candidaturas de extrema direita na França têm sido cada vez mais robustas.
Jean-Marie Le Pen chega para uma coletiva de imprensa em 2015
Christian Hartmann/Reuters
Em parte, uma mudança de Marine Le Pen contribuiu para isso. Nesta campanha, ela se esforçou para não se apresentar como uma radical. A mudança de retórica foi só uma escola de palavras, de acordo com a professora Cécile Alduy, da Universidade de Stanford, onde é professora titular de cultura francesa.
“É a forma que ela começou a falar de sua plataforma, com um tom apaziguador, um apelo à racionalidade, as alegações dela de que ela não tem ódio contra ninguém, mas apenas amor pela França e seus interesses a tornam mais leve em comparação com suas outras campanhas e, especialmente, em comparação a Eric Zemmour ou ao pai dela”, afirma a professora.
Zemmour, mencionado pela professora Alduy, é outro político de extrema direita na França. Ele ficou em quarto lugar no primeiro turno, com 7,1% dos votos.
As propostas de Le Pen mal mudaram em temas como imigração, mas nessa campanha ela simplesmente não insistiu muito nesse tema; ela preferiu falar sobre o custo de vida e temas econômicos, e ela não é agressiva nas escolhas de palavras nessas áreas, segundo Alduy.
“Ela (Le Pen) empregou as palavras do discurso ‘feminista’ e começou a se apresentar como a única possibilidade para que a França tenha uma primeira mulher presidente, e ela também parou de propor oficialmente que o país deveria sair da União Europeia”, diz a professora de Stanford.
Lição de casa
Uma reportagem do “New York Times” sobre a trajetória ascendente da extrema direita na França aponta que nas últimas décadas os representantes desse segmento político no país adotaram uma tática semelhante à dos políticos desse espectro nos Estados Unidos: criaram seus canais de comunicação, adotaram códigos para atrair pessoas mais jovens e se esforçam para inventar “guerras culturais”.
Na França, um dos temas pouco relevantes de fato, mas que a extrema direita apresenta como algo grave e ameaçador é a ideia de “wokisme”. A palavra é derivada de “woke”, termo em inglês para desperto, atento. Ela se refere a pessoas que seriam cientes das desigualdades sociais e do racismo e que se esforçam para combatê-los; para a direita, trata-se de um segmento da sociedade que tenta importar modismos dos EUA em detrimento da cultura francesa, o que acabaria intimidando que militantes se engajem em campanhas por justiça social por receio de parecer “woke”.
Histórico da direita na França
O avanço da extrema direita na França tem uma peculiaridade, diz Kai Enno Lehmann, professor do curso de Relações Internacionais da USP.
Apesar do discurso xenófobo, os políticos desse espectro político na França também têm propostas para a economia interna e para a sociedade francesa que, no Brasil, são consideradas ideias de esquerda. Lehmann dá como exemplo a idade mínima para se aposentar —Le Pen defende diminuir.
“A esquerda tem um problema enorme para se posicionar. Somos o quê? Defendemos o quê? Em termos sociais, de benefícios, a direita já pegou as pautas”, afirma ele. Essa falta de identidade do Partido Socialista tem feito com que o partido seja irrelevante eleitoralmente.
O colapso da esquerda foi muito rápido no país, ele afirma: François Hollande foi eleito pelo Partido Socialista em 2012. Dez anos depois, a agremiação dele teve 1,7% dos votos no primeiro turno.
Além disso, ele afirma que houve uma mudança da sociedade em relação a outros tópicos, diz o professor.
‘Amanhã, o céu será amarelo’, diz manifestante ‘coletes amarelos’ em protesto em Amiens, na França, cidade natal de Emmanuel Macron, em 2019
François Nascimbeni/AFP
Ele dá um outro exemplo: a ideia de separação entre Estado e Igreja, que sempre foi muito forte na França, talvez tenha perdido um pouco de seu poder.
“O consenso é que essas eleições vão ser a última tentativa de Le Pen, mas eu confesso que estou muito preocupado, não necessariamente com as eleições de agora, mas com o que vai ocorrer daqui a cinco anos: Macron não vai concorrer, o centro não mostra sinais de recuperação e os consensos políticos que existiram nos últimos 50 anos estão muito ameaçados”, pondera o professor.
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Fonte: G1 Mundo