Recém-libertos da escravidão e filhos de escravizados, já nascidos livres estabeleceram uma colônia que seria batizada de Libéria, ou ‘terra da liberdade’ Certificado de filiação à Sociedade Americana de Colonização: organização foi criada em 1816 e era composta por homens brancos, muitos deles proprietários de escravos
Biblioteca do Congresso dos EUA
Quando os primeiros americanos negros desembarcaram na costa oeste da África, 200 anos atrás, eles estavam fazendo o caminho inverso de seus antepassados, que ao longo de mais de dois séculos haviam sido levados à força do continente africano e escravizados na América.
Esses pioneiros, muitos deles recém-libertos da escravidão e outros filhos de escravizados já nascidos livres, estabeleceram no local uma colônia que seria batizada de Libéria, ou “terra da liberdade”.
Eles deixaram para trás a sociedade escravista dos Estados Unidos, onde, mesmo depois de livres, continuavam enfrentando preconceito, desigualdades e inúmeras limitações. No novo lar, buscavam construir uma vida com mais oportunidades e direitos políticos.
O bicentenário da chegada desses primeiros colonos está sendo celebrado pelo governo liberiano com uma série de eventos ao longo deste ano. As comemorações foram iniciadas em fevereiro, com uma cerimônia que teve a presença de uma delegação dos Estados Unidos e de chefes de Estado de várias nações africanas.
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Mas a história da criação desse país na África para abrigar os ex-escravizados dos Estados Unidos é complexa.
Enquanto muitos americanos negros livres já encabeçavam décadas antes o movimento que defendia o retorno à África, o início da colonização do que se tornaria a Libéria foi incentivado e patrocinado por uma organização formada por homens brancos, vários deles proprietários de escravos.
“O movimento de retorno à África foi iniciado por pessoas negras”, diz à BBC News Brasil o historiador Ousmane Power-Greene, professor da Clark University, no Estado de Massachusetts, e autor de livros sobre o projeto de colonização.
“Mas, ao mesmo tempo, há aqueles que se uniram ao movimento porque queriam deportar (os americanos negros livres). Estavam entusiasmados com a ideia de se livrar das pessoas negras (que moravam nos Estados Unidos)”, ressalta.
Sociedade Americana de Colonização
No início do século 19, décadas antes da Guerra Civil americana (1861-1865), que levaria ao fim da escravidão nos Estados Unidos, muitos no país já debatiam o que fazer com a população negra livre caso essa instituição fosse abolida.
Foi em busca de respostas para essa questão que, em 1816, um grupo de homens brancos reunidos no hotel Davis, em Washington, fundou a American Colonization Society (Sociedade Americana de Colonização, ou ACS, na sigla em inglês).
Mapa da costa oeste africana em 1830, incluindo a colônia da Libéria, que começou a ser colonizada por americanos negros em 1822
Biblioteca do Congresso dos EUA
Criada meio século antes da abolição da escravidão no país, a ACS contava com o apoio de nomes ilustres, entre eles o presidente na época, James Madison (1809-1817), o ex-presidente Thomas Jefferson (1801-1809) e os futuros presidentes James Monroe (1817-1825) e Andrew Jackson (1829-1837).
Os integrantes da ACS tinham opiniões diversas e, muitas vezes, contraditórias em relação à escravidão.
Alguns eram abolicionistas e tinham o desejo genuíno de ajudar a população negra a construir uma vida melhor na África. Outros, porém, rejeitavam a ideia de abolição e acreditavam que pessoas negras livres não deveriam continuar vivendo nos Estados Unidos, porque poderiam colocar em risco a instituição da escravidão.
Muitos proprietários de escravos na época temiam que o crescente número de libertos pudesse fomentar rebeliões entre os ainda escravizados, e tentavam impedir que convivessem. Em alguns casos, proprietários de escravos chegavam a oferecer alforria com a condição de que os recém-libertos aceitassem se mudar para a África.
Outros membros da ACS defendiam o fim da escravidão de maneira gradual, mas também temiam os efeitos da integração e rejeitavam a ideia de que negros livres e brancos pudessem conviver lado a lado.
Apesar dessa diversidade de posições, os integrantes da ACS concordavam com um projeto de colonização na África, que estabeleceria naquele continente um lar para os libertos e reduziria assim o número de pessoas negras livres vivendo nos Estados Unidos.
A ideia ganhou popularidade, e várias sociedades estaduais de colonização logo começaram a surgir ao redor do país, seguindo o mesmo modelo.
“É uma organização racista? É antiescravidão? A resposta é mais complexa”, afirma Power-Greene, lembrando que a ACS passou por várias fases ao longo de décadas.
Movimento de retorno à África
Apesar de a ACS ter sido fundada por homens brancos, na época o movimento de retorno à África já era popular entre a população negra. Mesmo antes da abolição da escravidão, diversas comunidades de americanos negros livres se espalhavam pelo país.
“É nessas comunidades que as atividades do movimento de retorno à África estão acontecendo, essas ideias estão se desenvolvendo”, diz à BBC News Brasil o historiador Herbert Brewer, professor da Morgan State University, em Baltimore, e especialista na diáspora africana.
“É importante entender que o movimento de retorno à África é anterior à ACS”, observa Brewer. “Ainda no século 18, pessoas negras nos Estados Unidos já estavam pensando e escrevendo sobre diferentes projetos para repatriar os afrodescendentes para a África.”
Alguns americanos negros acreditavam que só poderiam escapar da discriminação e desfrutar de uma vida verdadeiramente livre e próspera se voltassem para a África, terra de seus antepassados. Muitos tinham orgulho de sua herança africana.
“Os Estados Unidos dos anos 1820 eram um lugar peculiar para uma pessoa negra livre”, salienta Brewer. “Você era legalmente e tecnicamente livre mas, na realidade, e em termos de vários tipos de leis existentes na época, você estava excluído da vida pública.”
Fonte: G1 Mundo
