‘Brasil parece estar do outro lado de onde está a maioria da comunidade global’, diz porta-voz da Casa Branca sobre viagem de Bolsonaro à Rússia

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Departamento de Estado americano afirmou que o Brasil ‘parece ignorar a agressão armada por uma grande potência contra um vizinho menor, uma postura inconsistente com sua ênfase histórica na paz’. Secretária de imprensa da Casa Branca, Jen Psaki, em entrevista coletiva em 7 de abril de 2021
Kevin Lamarque/Reuters
A porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, disse nesta sexta-feira (18) que o Brasil parece estar do outro lado de onde está a maioria da comunidade global’, ao comentar sobre a viagem do presidente Jair Bolsonaro à Rússia.
Na véspera, um porta-voz do Departamento de Estado americano disse que o momento da visita do brasileiro ao presidente Vladimir Putin “não poderia ser pior” (leia mais adiante).
“Não discuti […] diretamente com o presidente”, disse Psaki. “Mas eu diria que a vasta maioria da comunidade global está unida em uma visão compartilhada, de que invadir um outro país, tentar tirar parte do seu território, e aterrorizar a população, certamente não está alinhado com valores globais e, então, acho que o Brasil parece estar do outro lado de onde está a maioria da comunidade global.”
Momento ‘não poderia ser pior’
Porta-voz do Departamento de Estado americano faz críticas enfáticas à conversa de Bolsonaro com Putin, em Moscou
Os EUA criticaram nesta quinta-feira (17) o momento e o conteúdo do encontro do presidente Jair Bolsonaro com o presidente russo Vladimir Putin.
“Vemos uma narrativa falsa de que nosso engajamento com o Brasil em relação à Rússia envolve pedir ao Brasil que escolha entre os Estados Unidos e a Rússia. Esse não é o caso. A questão é que o Brasil, como um país importante, parece ignorar a agressão armada por uma grande potência contra um vizinho menor, uma postura inconsistente com sua ênfase histórica na paz e na diplomacia”, disse um porta- voz do Departamento de Estado à TV Globo.
O governo americano também se mostrou irritado com a declaração de solidariedade do presidente Jair Bolsonaro à Rússia.
“O momento em que o presidente do Brasil se solidarizou com a Rússia, enquanto as forças russas estão se preparando para potencialmente lançar ataques a cidades ucranianas, não poderia ter sido pior. Isso mina a diplomacia internacional destinada a evitar um desastre estratégico e humanitário, bem como os próprios apelos do Brasil por uma solução pacífica para a crise”, afirmou o porta-voz.
EUA: Brasil parece ignorar agressão russa à vizinha Ucrânia
Nesta quarta-feira (16), Bolsonaro se reuniu com Putin e disse, ao lado do líder russo: “Somos solidários a todos aqueles países que querem e se empenham pela paz”. Antes do encontro, ao falar sobre uma eventual reação americana à movimentação militar russa, Bolsonaro disse que Putin “busca a paz”.
“Não (temo reação). O Brasil é um país soberano. Sim, tivemos informações de que alguns países não gostariam que o evento (a reunião de Bolsonaro e Putin) se realizasse, que o pior poderia acontecer com nossa presença aqui. Entendo a leitura do presidente Putin, que ele é uma pessoa que busca a paz. E qualquer conflito não interessa a ninguém no mundo”, afirmou Bolsonaro.
Os presidentes do Brasil, Jair Bolsonaro, e da Rússia, Vladimir Putin, reuniram-se em Moscou, acompanhados de intérpretes
Oficial Kremlin/PR
Em outro momento, Bolsonaro voltou a afirmar que, em sua opinião, Putin busca a paz.
‘Mensagem errada’
Em meio a escalada da tensão na Ucrânia, desde janeiro, o secretário de estado dos EUA, Antony Blinken, conversou duas vezes com o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Carlos França.
Eles discutiram a visita de Bolsonaro a Moscou. Os americanos avisaram que uma foto de Bolsonaro com Putin poderia enviar uma mensagem errada, mas o governo americano não pediu para a viagem ser cancelada. O assessor de segurança nacional da Casa Branca respondeu a TV Globo dias antes da visita que “o presidente brasileiro é livre para conduzir sua própria diplomacia, inclusive com a Rússia”.
Os EUA pediram que o presidente brasileiro entregasse uma mensagem de princípios ao presidente Putin sobre a importância de seguir o caminho diplomático, diminuir as tensões na região e respeitar a soberania e a integridade territorial da Ucrânia.
Importância do Brasil na crise
O posicionamento do Brasil com relação ao que ocorre atualmente no Leste Europeu ganha certa importância porque o país ocupa um assento rotativo do Conselho de Segurança da ONU .
Além disso, o Brasil tem o status de aliado militar extra-Otan dos EUA, concedido ao país ainda pelo governo de Donald Trump.
Em 2021, já na gestão Biden, os Estados Unidos declararam apoiar que o Brasil virasse um parceiro global da Otan, o que poderia aumentar o acesso dos militares brasileiros a armamentos e treinamentos da organização.
Neste momento, os EUA buscam unir aliados e parceiros do Conselho de Seguranca da ONU e da Otan em contraposição às exigências russas em relação à Ucrânia.

Fonte: G1 Mundo