Distância entre o discurso e a conduta de Boris Johnson e Sanaa Marin abala confiança de britânicos e finlandeses para cumprir novas restrições impostas pelo avanço da variante ômicron. Boris Johnson durante sessão no Parlamento em 8 de dezembro de 2021
Reuters
Enquanto os britânicos estavam confinados em casa, em dezembro de 2020, a equipe de Boris Johnson confraternizava em duas festas de Natal. Já a premiê da Finlândia, Sanaa Marin, se esbaldou numa boate, na semana passada, horas depois de seu chanceler ter testado positivo. A variante ômicron impõe mais e mais restrições nos dois países, mas a distância entre o discurso público e as ações dos governantes dissemina a revolta entre seus cidadãos.
Em dois anos de governo, Johnson coleciona escândalos. De início, menosprezou o novo coronavírus até ser infectado e internado às pressas na UTI. O Reino Unido enfrentou várias quarentenas e foi duramente castigado pela pandemia, com 145.500 mortos.
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No Natal passado, as reuniões familiares foram proibidas e os britânicos eram multados se violassem as regras. Um vídeo vazado esta semana pela ITV News, no entanto, mostra funcionários do gabinete em ensaio para uma entrevista coletiva, fazendo piadas sobre as festas realizadas na sede do governo.
Pegou muito mal para Johnson, que teria feito um discurso numa das reuniões que violaram o bloqueio, em 27 de novembro. Flagrada sorridente nas imagens que chocaram o país, a porta-voz do premiê, Allegra Stratton, foi para o sacrifício e se demitiu nesta quarta-feira.
Desta vez, ela apareceu chorosa diante das câmeras e, num comunicado, se disse arrependida do tom jocoso professado um ano antes. “Eu entendo a raiva e a frustração que as pessoas sentem. O povo britânico fez imensos sacrifícios na batalha em andamento contra a Covid-19.”
A demissão da conselheira não aplacou os ânimos. “Temos um primeiro-ministro que se distanciou socialmente da verdade”, proclamou o trabalhista Keir Starmer, líder da oposição, para quem Johnson perdeu a autoridade moral para impor novas restrições.
De fato, ele viu enfraquecer rapidamente seus argumentos ao tentar convencer o país sobre a gravidade da variante ômicron e a necessidade de mais sacrifícios para mitigar seus efeitos. As projeções sugerem que até o fim do ano o número de internações pode chegar a mil por dia.
O retorno do home office e da obrigatoriedade de máscaras em locais fechados e a apresentação do certificado digital estão entre as primeiras medidas decretadas por um primeiro-ministro desacreditado diante de seus cidadãos.
Os argentinos, por exemplo, castigaram duramente o presidente Alberto Fernández ao verem as imagens de um jantar clandestino, em pleno lockdown, comemorando o aniversário da primeira-dama, Fabiola Yañes, às vésperas das eleições primárias, em setembro.
A decisão de Fernández doar metade do salário, durante quatro meses, a um centro de referência científica, não amenizou o desgaste causado pelo escândalo. Em novembro, a coalizão do governo perdeu, pela primeira vez em 40 anos de liderança peronista, o controle do Senado.
Situação semelhante enfrentou a primeira-ministra Sanna Marin, que viu sua popularidade despencar por ter ido a uma boate na mesma noite em que soube que seu ministro das Relações Exteriores testou positivo para a Covid-19. Estrago feito – dois terços dos finlandeses condenaram a saída noturna da premiê –, ela precisou pedir desculpas à população.
A premiê alegou ter deixado o celular de trabalho em casa e não viu a mensagem com a recomendação de se isolar até obter o resultado negativo. Dançou até as 4h de sábado e, somente na manhã seguinte, fez o teste.
Eleita em 2019, Marin, de 36 anos, coordenou uma campanha eficiente na pandemia e fez do país um dos com índices mais baixos entre seus vizinhos nórdicos. Mas, desde setembro, o número de infecções vem aumentando.
Segundo as normas do país, embora a pessoa vacinada com duas doses não seja obrigada a se isolar se tiver contato com um caso positivo, é aconselhada a fazê-lo. “Lamento muito não ter entendido que precisava fazer isso”, postou numa rede social. Se um governante diz que não entende as regras, melhor não tentar impô-las à população.
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Fonte: G1 Mundo
